Quase quatro em cada cinco diretores financeiros ainda estão na fase de testes com inteligência artificial. É o que mostra um levantamento do EY Center for Executive Leadership, realizado em dezembro de 2025 com CFOs de grandes empresas: 78% afirmam que estão começando a experimentar IA na área financeira, na maior parte dos casos por meio de provas de conceito, sem aplicação em escala.
Os usos citados com mais frequência estão no contas a pagar, na validação de contratos, em assistentes internos e na previsão de receita. Entre os casos que já funcionam, a EY destaca a gestão de cobrança com foco em atrasos, com agentes que geram comunicações e acompanhamentos de forma automática. É uma aplicação de contas a receber, área que costuma ficar no fim da fila quando a empresa decide onde investir em tecnologia.
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A ordem de prioridades tem explicação. Automatizar o contas a pagar reduz custo interno e o resultado é fácil de medir. O contas a receber depende do cliente, envolve a área comercial e exige cobrança, uma atividade que muitas empresas tratam como questão de relacionamento, e não de processo.
O efeito aparece na gestão. Em um país onde 77% das vendas entre empresas são feitas a prazo, segundo levantamento da Qive, o contas a receber de boa parte das PMEs ainda é controlado em planilhas, com cobrança informal e sem previsão confiável da data de entrada dos recursos. Um dos CFOs ouvidos pela EY descreveu o problema: leva um trimestre para prever um trimestre.
Para a pequena e média empresa, o ganho não depende de projetos de grande porte. Três aplicações concentram a maior parte do retorno.
Régua de cobrança automatizada. Lembretes antes do vencimento, confirmação de recebimento da nota fiscal, aviso na data e contato escalonado nos dias seguintes. Sistemas de gestão financeira e plataformas de emissão de boleto já oferecem o recurso, e o efeito sobre o prazo médio de recebimento costuma aparecer no primeiro mês.
Conciliação automática. Cruzar o que foi faturado com o que entrou na conta elimina trabalho manual e mostra, em tempo real, quais títulos estão em aberto, quais foram pagos parcialmente e quais já estão em atraso.
Previsão de recebimento. Com o histórico de pagamento de cada cliente, é possível projetar a data provável de entrada do recurso, que raramente coincide com o vencimento. É nessa etapa que os modelos de IA passam a fazer diferença, ao transformar o contas a receber em ferramenta de previsibilidade de caixa.
A pesquisa da EY traz um alerta. Traci Gusher, líder de IA e dados da consultoria para as Américas, recomenda planejar 20 dólares em dados para cada dólar investido em IA. A proporção indica onde está o trabalho real: nenhuma automação corrige cadastro incompleto, título sem registro ou nota emitida com informação divergente.
No contas a receber, isso significa começar pelo básico. Cadastro de clientes atualizado, com CNPJ, contato financeiro e condição de pagamento registrada. Títulos emitidos com todos os campos corretos, exigência que a duplicata escritural e as novas regras da nota fiscal eletrônica tornaram obrigatória. Histórico de pagamento organizado por cliente.
Há um efeito adicional desse trabalho. Uma carteira de recebíveis com títulos registrados, sacados identificados e histórico de pagamento consistente é uma carteira mais fácil de antecipar.
Na antecipação de recebíveis, a análise do título e do sacado define a velocidade e as condições da operação. Quando a empresa apresenta dados organizados, a avaliação é mais rápida. Quando apresenta planilhas desencontradas e faturas inconsistentes, o processo demora. O mesmo esforço que permite automatizar o contas a receber torna a antecipação mais eficiente.
A maioria das empresas ainda está testando IA no financeiro, e isso não é um problema. A questão é escolher a área certa para testar. Para quem vende a prazo, o contas a receber é onde a tecnologia tem impacto direto sobre o caixa. Organizar a base de dados, automatizar a rotina de cobrança e usar o histórico para prever recebimentos é o caminho mais curto entre a promessa da inteligência artificial e um fluxo de caixa previsível.
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